Trim! Soou o alarme em seu clangor metálico e disruptivo para avisar que chegaram as 7:15 da manhã de segunda-feira. Na sua mente ainda habitavam os ecos distorcidos dos gritos de sua alma. Ele levanta e vai para o banheiro prostrar-se em frente ao espelho e começa sua higiene matinal. Toma um copo de leite da geladeira e coloca o café para passar. Aguarda o café olhando o pão fumegante e enquanto isso, merge sua pálida fisionomia com as imagens que e sons que resistiram à noite gelada em sua memória. Ouve gritos, choro, beijos e fogo. Sente a morte extirpar-lhe o amor com que sonhara. Estremece. puxa suas memórias e fica melancólico, sente a morte levar o amor com qual sonhara. Estremece. Puxa suas memórias e fica melancólico, sente suas pernas se mexendo em ansiedade e nada faz. Morde seu dedo levemente. Ouve assobios. A água ferveu e seu café pode ser servido. Adoça-o com três colheres três colheres de açúcar mascavo e com um profundo (e desanimado) suspiro dá o primeiro gole. Passa manteiga no pão e morde. Vê cabeças espalhadas pela mata, sente o peso das lágrimas nos olhos de outrem nos seus e deseja cantar as canções de amor que sempre entalaram na sua garganta.
Termina o café, bebe um copo de água e vai tomar uma ducha. Pensa nas memórias boas que tem e nas novidades que leva. Pensa em escreve-las para salva-las de sua transiência. Desiste e lava seu cabelo. Enquanto veste a calça, pega-se pensando em gravar um vídeo. Sente desespero e, sentado ao pé de sua cama, banhada em tons dourados pela luz intermitente de lâmpadas incandescentes de funcionamento intermitente vestes suas meias. Sai para a sacada para acompanhar o ocaso e é atingido pelo "buzz" sincopado e poli-rítmico dos enxames de carros e motos em assincronia com os enxames de pessoas, sente um gélido frio em sua espinha que é acompanhado por sobreposições vívidas de memórias, sonhos e pesadelos macabros. Não há mais tempo, há o vazio, a pressa e, repentinamente, seu mundo se desfaz e tarefas reais se sobrepõe e o consomem até que chegue o próximo tilintar dos sinos do relógio. Só o que há é o que há para fazer e resolver; problemas para lidar, roupas para dobrar, dinheiro para contar, presentes para embalar e coisas para resolver que, finalmente, com o "zip" dos feixes da mala, se dissolvem e perecem.
O girar da porta automática atrás dele indicava o fim de seu passeio e marcou também o reinício de sua atividade mental. Sentia-se ao mesmo tempo uma formiga em uma colônia e uma barata desnorteada. Sem ter realmente para onde ir vai para o caminhando até o táxi mais próximo e segue para o aeroporto, para onde tem que ir. Do táxi observa os reflexos pálidos vindos dos edifícios de cinzentos e de linhas retas e sisudas, o calor o oprime e o tira de sua consciência. Ele adormece. Em seu sonho o vazio negro e a poeira brilhante e cinzenta o fazem tossir violentamente. Ao olhar em volta avista apenas duas pequenas fontes avermelhadas de luz que irradiam e se parecem dois pequenos olhos. Ao se aproximar se depara com um ser de aproximadamente três metros de altura e corpo negro que parece ser feito de um liquido de arestas que estão constantemente evaporando e se extinguindo em um comportamento análogo ao do fogo. Seu era rosto coberto por uma mascara de cascas de árvore retorcida, sem nariz e a boca era coberta por cinco aberturas horizontais intercaladas. Seu semblante severo era completado por uma coroa de espinhos retorcidos que brilhava sob um pálido fio de luz que emanava sobre a completa escuridão do local e desvelava suas vestes. Usava uma armadura de madeira retorcida na parte superior com largos ombros pontudos e, assim como o resto de suas vestes exibia algumas poucas folhas de um marrom claro, menos em suas mãos e pés que estavam descobertos. Ao se aproximar, nenhum movimento. A criatura quedava-se imóvel sobre seu trono, que consistia em uma árvore aparentemente muito antiga, da qual emanavam dois grandes galhos bifurcados, um para cada lado. De repente, após algum tempo, a criatura move-se para levantar sua mão, na qual surge um grande chicote de espinhos que, ao estalar repetidamente no chão começa a adquirir uma forte coloração roxa. Após isso a criatura move sua cabeça e firma seu olhar em sua direção e, de repente invoca todos os seus pesadelos que começam a surgir bem diante de seus olhos, logo atrás da estranha figura. A tensão faz com que as lágrimas jorrem de seus olhos já vermelhos e um mísero segundo depois e todo o momento vivido, o titã chicoteia o chão na ponta de seus pés e tudo vira escuridão. Agora nosso herói encontra-se sobre o pico de uma formação rochosa que lembrava um imenso e estreito monolito no qual recobrou sentidos em posição fetal. Ao levantar-se observou que dali não havia saídas, estava cercado por espinhos perfeitamente simétricos feitos de diamantes reluzentes e transparentes. Acima e abaixo de sua cabeça haviam estalagmites e estalactites feitas do que parecia ser jade e que lentamente, assim como as paredes vinham em sua direção. Impotente e aos gritos John está prestes a ser esmagado e brutalmente perfurado quando de repente, em meio a todo o progressivo caos e a seus gritos um sinal "ping, ping, ping" irrompe, seguido pela voz do taxista:
- Chegamos ao aeroporto senho, a corrida custou R$ 15,00. Vou pegar suas malas.
Estava vivo e estranhamente tranquilo. Agora sabia que já não importava mais. No celular uma mensagem dizia: "Estou com saudade papai".
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